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Abri os olhos.

Foi tudo um sonho, o tempo não passou apressado e eu ainda sou eu. Meu coração ainda bate forte e eu consigo me equilibrar em minhas próprias pernas, estou inteira.  Respiro aliviada, lavo o rosto e perfumo o corpo, foi só um pesadelo. Ouço seus passos pela casa, são como música aos meus ouvidos – no sonho eu não ouvia mais você.

Desço as escadas correndo e me preparo para pular em seus braços. Estanco. Não é você! De quem é esse rosto? De quem é essa casa? Tem alguém me sorrindo. Não o reconheço.  Caminho até o banheiro e me olho no espelho. O que está acontecendo? Não é o meu reflexo que vejo.

Quem é essa mulher? Que olhos tristes, que figura sem cor! É morta, mas vive. Movimento-me e ela repete cada gesto meu. Calafrio. Meu peito dói, meu coração se desfaz em pequenos cacos, perco o equilíbrio e o chão – sou eu. Mas eu ainda sou uma menina!

Onde eu estive esse tempo todo? Como não vi isso tudo acontecer?
Onde você está? Eu morri? Como continuo caminhando? Como continuo vivendo?

(você me matou)

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dias difíceis

Com o tempo, compreendemos que são poucas as pessoas que realmente se importam com o que sentimos. Então, passamos a disfarçar nossas dores. Aprendemos a sorrir, mesmo quando a maior vontade é chorar e desistir de tudo. Aprendemos a silenciar e isso já não nos machuca. E assim, dia após dia, o mundo se torna mais individualista, mais frio. Foram dias difíceis, extremamente cansativos – intelectualmente, é claro. Etapas chegaram ao fim, decisões foram tomadas, e eu continuo aqui – só Deus sabe em que estado – tentando aprender a ignorar que, muitas vezes, só queria que se importassem, que sentissem…

Intensidade

O sentimento cresceu. Indomável. Quase pude senti-lo a quebrar cada vértebra, cada osso, ao ganhar uma proporção fora do comum, dentro de mim. Meu corpo já tão cansado, surrado pela violência dos rompimentos, cedeu. Já não havia mais espaço, nem remédio. Foi se espalhando pela corrente sanguínea, ganhando cada membro, cada milímetro do meu –eu. Me fazendo esquecer medos, angústias. Por não conseguir controlar o que sentia, entreguei-lhe meu coração. Músculo exposto – imperfeito e cheio de ânsias pela vida. Pude ver que já batia além de mim. Abri cada parte, contei-te meus segredos, meus sonhos. Mostrei-te cada ponto fraco, cada parte sensível. Dividi-me para somar, multiplicar, para espalhar por toda parte e sufocar de tanto amor. Inebriante sensação de perder-se para se encontrar, de pular com os olhos fechados, de dar a mão e deixar-me levar, não sei como, nem prá onde.

 

 

 

Olho no espelho

É como se eu pudesse ver cada marca que a vida me deixou. Posso ver claramente os hematomas causados pelas decepções. Cada corte aberto representa um sonho que tive que deixar para trás.

Percebo olheiras profundas sob meus olhos que já não brilham. Lágrimas brotam de cada um deles ao notar que posso ver meu coração… Ele bate lentamente, com dificuldade, e dói a cada movimento. Existem remendos, por onde sangra e, mesmo assim, faltam-lhe alguns pedaços…

Por vezes, sinto dificuldade para respirar, é como se faltasse o ar. Não gosto do que vejo, não é isso que eu quero para mim. Tenho vontade de acabar com tudo, mas a covardia faz com que eu desista.

Então, puxo o ar com força e lavo o rosto com cuidado, pois a cada toque a dor fica mais intensa. Escolho uma nova mascara e a posiciono sobre as feridas. Nela, há um sorriso estampado.

E então, eu acordo: já é um novo dia.

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